24.7.07

Sessão pipoca cerebral: Mais estranho que a ficção

Faz tempo que não verborrageio sobre cinema. Também faz tempo que não invento palavra nova e verborragiar é uma das bem feias! Tudo bem, é perdoável, afinal, minha cabeça não para de trabalhar pra digerir um filme que assisti ontem – uma das doces surpresas que me acontecem às vezes.

No começo do ano levei um tapa de um filme foda, com uma fotografia e direção de arte fantástica, chamado “A Passagem” (Stay, no original). O filme traz Ewan MacGregor e foi só por isso que me chamou a atenção no meio dos filmes que ninguém sequer chega perto na locadora. Ontem, levei um outro tapa, mas esse foi mais parecido com o que me deu “Uma simples formalidade”, com o Gérard Depardieu e Roman Polanski.

Tomei a garoa de São Paulo o dia inteiro e a noite não pude resistir a pegar filmes para assistir em casa durante a semana, afinal, depender da TV a cabo não dá mais. Aluguei vários títulos interessantes, entre eles “O último rei da Escócia”, mas o que me chamou a atenção foi um chamado “Mais estranho que a ficção”.

Fiz o mesmo que com “A Passagem”, olhei ele com calma, vi que o Dustin Hoffman estava no elenco e fiquei curioso – a final Will Ferrel é engraçado, mas a soma dos dois pareceu ser, no mínimo, inusitada. Minha atenção ficou ainda mais presa quando li a sinopse:

“Certa manhã Harold Crick (Will Ferrell), um funcionário da Receita Federal, passa a ouvir seus pensamentos como se fossem narrados por uma voz feminina. A voz narra não apenas suas idéias, mas também seus sentimentos e atos com grande precisão. Apenas Harold consegue ouvir esta voz, o que o faz ficar agoniado. Esta sensação aumenta ainda mais quando descobre pela voz que está prestes a morrer, o que o faz desesperadamente tentar descobrir quem está falando em sua cabeça e como impedir sua própria morte.”

Logo pensei que era alguma coisa entre uma comédia tipo “Click” e “O Show de Truman”, essas coisas que os comediantes fazem para tentar agradar mais do que as crianças e entrar para o eixo sci-fi cult. Como me enganei! Encontrei um filme sensível e, ouso eu comparar, ao filme “Muito além do jardim”, um dos filmes mais doloridos, gostosos e perturbadores que assisti em minha vida (com a atuação mais que brilhante do Petter Sellers)

Sem contar este aspecto sensível, o filme tem uma direção fantástica e uma estética mais que perfeita para representar o dia-a-dia repetitivo e sem gosto em que vivemos – talvez uma das formas mais certeiras que vi até hoje, modernizando a repetição de movimentos de “Tempos modernos” de Chaplin.

Em “Mais estranho...” eu acabei vendo o cotidiano e os questionamentos feitos em tantos livros, em tantos filmes. Fiquei perplexo em me ver bombardeado pelo imediatismo do respirar, do viver. Senti-me engolido como se tivesse lido ou assistido “Clube da Luta”, mas o estrago foi maior. Sabe aquela premissa médica que o maior estrago está onde a gente não pode ver? Então, foi mais ou menos isso. A mensagem do filme chegou de mansinho, penetrando bem fundo e quando percebi já tinha detonado muita coisa do meu dia-a-dia – foi reacendida aquela necessidade imediata de viver, respirar e de gostar cada dia mais das pequenas coisas, desde o ônibus lotado, aos ambulantes nas ruas e os pequenos momentos bobos que temos com quem gostamos.

Talvez o filme seja tão destruidor quanto Saint-Exúpery, quando escreveu em "O Pequeno Príncipe": “o essencial é invisível aos olhos”.

Nunca fiquei tão feliz em estar enganado sobre um filme.

12.7.07

Sobre o Ecletcismo

Eu pretendida escrever algo sobre o ecleticismo, mas em uma busca besta e providência ao Google, encontrei um ótimo texto.

Se eu pudesse assinava, mas como não é meu, só posso dar os parabéns ao autor e indicar que o leiam:

Ecleticismo

5.7.07

Rodízio dá pizza

O que dizer dessa semana em São Paulo? Não vamos reclamar do clima, nem mesmo dos mendigos, do mau cheiro ou da violência, vamos falar do supérfluo, de algo que nós, paulistanos, nem mesmo percebemos: a suspensão do rodízio.

Opa, será que vocês ainda não sabem que o rodízio municipal de veículos foi suspenso até o dia 13? Isso mesmo, do dia 2 até o dia 13 todos os carros podem circular pela capital.
O alegado para essa suspensão foi que eles querem testar para fazer uma análise se é possível tomar essa medida todos os anos, afinal, são férias escolares.

Só que as pessoas que tomaram essa decisão estão entre uma ou duas: (1) são super inteligentes e fizeram uma manobra política para reforçar que o rodízio é necessário ou (2) fizeram uma cagada fenomenal, porque o que deixa o trânsito mais “leve” no período entre o dia 25/12 e 25/01 não são as férias escolares, mas o fato de que todo paulistano (pobre mortal) vai para a praia (de pobre mortal) de carro, ou seja, leva o trânsito para os outros lugares e São Paulo se torna a cidade mais gostosa de se viver – indico vocês de fora a passarem suas férias aqui, fica incrível, até a violência diminui (enquanto aumenta na Baixada Santista, Guarujá, Mongaguá e adjacências).

Demorei DUAS horas para chegar ao trabalho hoje, sendo que eu venho de ônibus, fora do horário de pico. Se queriam provar algo, conseguiram: o rodízio virou obrigatoriedade em todo o período que não seja entre Natal e aniversário da cidade.

É irritante pensar que o rodízio, uma medida que era para ser paliativa (tal como a tão difamada CPMF*, que de Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira passou a permanente) passou a ser a única maneira de manter o caos menos visível.

O problema de infra-estrutura da cidade acabou sendo mascarado pelo rodízio veicular: os investimentos (de capital e trabalho) em transporte público de qualidade não chegam nem perto do que deveriam, tal qual é o investimento em obras de melhoria do fluxo viário – é necessário um investimento pesado em obras como túneis e viadutos de verdade (buracos que ligam nada a lugar nenhum devem ser ignorados). E não adianta nada nós, gente que sofre e não anda de helicóptero, ficar pedindo pra sinalizarem as vias que sofrem o rodízio, temos é que exigir aplicação da nossa grana em algo que reverta benefício direto pra nós mesmos.

Deve-se estudar com muita cautela o problema do transporte público, afinal, já pagamos impostos demais e ainda somos obrigados a pagar R$ 2,30 para andar de ônibus, trem ou metrô, quando em países como a Argentina o transporte custa menos do que o equivalente a R$ 0,50. Os conformistas de plantão podem argumentar que o custo para manter uma cidade do tamanho de São Paulo são bem maiores, mas será que a arrecadação também não é proporcionalmente maior? Ao invés de aprovarem leis idiotas de “higienização visual” da cidade, porque os políticos, nossos grandes administradores, não decidem arrumar a bagunça em um outro nível?

O problema de São Paulo não está só na poluição, esse é um problema resultante de outros descasos. Não adianta nada pensar em reciclagem de materiais se você não possibilita o escoamento de outras coisas, tais como pessoas e produtos.

Fico imaginando se as técnicas de administração de São Paulo fossem aplicadas ao mundo virtual, teríamos rodízio de IP ao invés de melhorias na qualidade dos links, roteadores e cabeamento utilizado.

:P


* Dado curioso sobre a CPMF: era pra vencer nesse ano corrente mas até agora parece que vai ser estendida por mais alguns.

4.7.07

A "Grande N" vai dominar o mundo

A Nintendo, mais uma vez, aumenta a sua linha de "jogos não convencionais". Eu estou falando que esses caras vão dominar o mundo, agora o DS também pode ter uma câmera digital acoplada. Vocês não tem idéia de como isso pode ser utilizado e as possibilidades que abre, não só uma ferramenta idiota como o joguinho de treinamento, mas dá pra fazer mais coisas legais, muito mais!

Leiam mais aqui:

http://jogos.uol.com.br/ultnot/nintendo/ult4096u422.jhtm

29.6.07

Viciados do futuro quase presente

- Estou tão triste. Meu filho se desvirtuou, comadre!

- Mas o que ouve, Dona Ana? O que o menino aprontou? Ele me parecia um bom moço.

- Comadre, o Vitinho está viciado. Entrou para um mundo estranho. Fica o dia todo viajando entre cores e sons estranhos, perdeu o contato com a realidade. O que eu faço, pelo amor de Nossa Senhora das Dores?!

- Já pensou em procurar ajuda profissional? Ele está traficando já? Ou está vendendo as coisas de casa pra comprar novos produtos?

- Ele está comprando pela Internet!!!!! Você não tem idéia, toda semana chega pacote novo. Ele não para de fazer encomendas! Não sai de casa! E quando sai tem uma companhias bem estranhas!

- Então você precisa internar o menino em uma clinica de desintoxição! Um psicólogo e um psiquiatra dão um jeito nele, você vai ver só.

- Mas comadre, não vale a pena eu tentar convencer ele a freqüentar o JVA?

- Aos Jogadores de Videogame Anônimos?! É uma boa saída... mas vai que lá ele se envolve com gente pior ainda. Vai que tem algum jogador de RPG ou um cardmaníaco!!!

- Deus que me livre! Toc-toc-toc – ela bate na madeira.

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É isso aí, pessoal, agora jogadores de games serão considerados doentes, esperem só para verem por aí proibições e até mesmo rótulos dos neandertais que querem arrumar alguma forma de ganhar dinheiro com as conseqüências – espere só isso sair também para aparecerem por aí processos em cima de produtoras de games dizendo que seus clientes foram lesados definitivamente e que precisam receber milhões de dólares em indenização por suas perdas.

O fim está próximo!

E do que eu diabos estou falando? Da matéria da Reunters que está no UOL hoje e diz que “Médicos querem mais estudos sobre efeitos do uso de videogame

9.5.07

Popetine in São Paulo, Brazil

Vamos brincar de onde está Wally? Mas na verdade, vamos brincar de contar quantos PMs e GCMs estão na multidão!

Isso pra vocês verem como o centro de São Paulo "é" o lugar mais seguro de São Paulo. Aproveitem, aproveitem. Tragam os seus notebooks, Ipods, PSPs, Nintendos DS e Palms, hoje vocês podem usar tudo... mas não no meio da muvuca, tentem ficar o mais próximo possível do cordão de isolamento, da unidade K9 e da cavalaria - se tiver uma ponta de medo, vai pra perto do Exército!

Aliás, fez frio pra gente não pensar que estamos no Rio. Não é o Pan, mas é o Pampatine, o nosso papa do Dark Side!

A vinda do Papa e a hipocrisia assumida fazendo seu hardcore

De uns tempos para cá, resolvi usar definições do dicionário (no caso abaixo tirei do Houaiss) para as palavras bonitas que gosto de usar como base para os meus desabafos, então, seguindo essa idéia, hoje vamos tocar em uma palavra que os brasileiros gostam muito de usar em seu dia-a-dia, mas vocês costumam ouvir variações como “icresia” e “hiproquisia” com certa freqüência.

hipocrisia

Datação

sXV cf. FichIVPM

Acepções

■ substantivo feminino

  1. característica do que é hipócrita; falsidade, dissimulação
    Ex.: com a h. que lhe é peculiar, pôs-se a adular a sogra
  2. ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade
    Ex.: ela veio com a habitual h., mas não me enganou
  3. caráter daquilo que carece de sinceridade
    Ex.: a h. das palavras

Agora você já sabe que falar que é fingimento, dissimulação, mentira ou falsidade dá quase na mesma, dependendo do contexto você escolhe uma dessas palavras.

E por que diabos a palavra de ordem é a hipocrisia? Simples, queridos leitores, porque ela banha a nossa sociedade de uma maneira tão natural que respiramos ela sem reclamar: como fazemos com o mau cheiro exalado pelos escapamentos dos carros, ou pior, como fazemos com o mau cheiro dos rios Pinheiros e Tietê – no final, achamos esse fedor insuportável a coisa mais natural do mundo!

O papa vem ao Brasil! Acabaram-se os problemas.

Resolvemos a sujeira na cidade, acabamos com as pichações, encerramos com problema dos moradores de rua, as crianças de rua do Vale do Anhangabaú e da Sé encontraram lares seguros, os desempregados, desocupados e desesperados que permeiam o centro da cidade encontraram emprego ou ocupação. Milagre, tudo foi resolvido somente com a visita da Suprema Santidade ao Brasil.

Quero que o Vaticano se mude para São Paulo, viveríamos então no Paraíso – mudaríamos então o nome da Consolação para Paraíso II e os prostíbulos na Augusta virariam casas de oração (Hein!? Hein!? Sacaram?).

Por que digo isso? Desde que o Papa levantou seu traseiro lá do Vaticano, a cidade está se tornando “melhor”. Estão removendo os mendigos do centro (e suas fezes que se espalham do Largo do São Franscisco, Rua Direita, Sé e São Bento também sumiram), estão limpando as pichações dos monumentos e prédios históricos, há policiamento em quase todas as ruas (sem contar o Exército), os camelôs sumiram, as crianças de rua foram para outro lugar e até mesmo o Outono paulistano resolveu vim ver o Papa – viva a friaca e a garoa!

Os problemas se resolveram de uma vez! Aleluia, irmãos! Renovemos a fé católica apostólica romana! Viva o nosso eterno rock star! Viva o Pontífice Supremo da Igreja!

Até parece, crédulos e miseráveis paulistanos! A cidade está passando por aquela maquiagem básica, pior do que a que ocorre em períodos eleitorais – estamos tentando vender a imagem de país do bem, de cidade bonita e ideal. O que acontece aqui é mais ou menos o que ocorre com o Rio de Janeiro e sua orla maravilhosa, ocultando os morros que juntam a pobreza e a violência bem longe dos olhos dos turistas, mascaradas pelas fachadas dos arranha-céus cariocas e lá atrás do Corcovado, bem na sombra do Cristo Redentor.

Somos vítimas da hipocrisia brasileira, natural em nosso sangue, incrustada nas gerações que estão no poder através dos anos de militarismo, onde vale mais uma faxina para a visita ver como você é polido do que a resolução permanente dos problemas do encanamento da sua casa.
É mais ou menos o que acontece quando sua mãe resolve limpar a casa para receber visita, mostrando que lá vivem pessoas educadas, preocupadas com a higiene, mas no restante dos dias tudo fica uma zona – sem contar com os problemas de relacionamento familiar. Todo mundo sentado, na sala impecavelmente limpa, com sorrisos brancos esticados em face, fingindo ser a imagem da família de comercial de margarina.

O Papa fica aqui até o final de semana, depois volta para seu país que tem a maior renda per capita do mundo – e eles nem produzem petróleo. Talvez eles não tenham a maior renda per capita, posso estar enganado (e tenho quase certeza que estou), mas posso garantir que o maior lastro do mundo está lá, no Vaticano, um pingo de ouro, prata, obras de arte e pedras preciosas bem no meio da bota italiana – é um pin que Pan nenhum substituí.

Quando o senhor Bento XVI voltar para sua terra do ouro, da felicidade e das missas (eu insisto que lá também é a terra das massas, porque esse negócio do Vaticano ser Estado independente é estranho demais pra mim – é menor do que Campinas o lugar, gente!) as coisas vão voltar rapidinho para o original: as crianças de rua tomando banho e mijando nas fontes do Anhangabaú e da Sé; o chafariz da Praça Ramos desligado, rodeado de camelôs, cheiradores de cola e paulistanos preocupados em chegar no trabalho/casa depois de já ter ralado um dia/noite inteiro; assaltos pelos viciados em crack na região central; merda espalhada pelas ruas centrais – da Sé para todo o seu entorno, com o selo de garantia “Dobradinha Paulista: feijão, arroz e cheiro de Tietê”... e por aí vai, a lista de coisas que voltarão é tão triste que nem quero mais lembrar.

Aliás, vale lembrar que não é “Bento Xisvi” (parece nome de "réper" brasileiro), pois se lê “Bendo Dezesseis”, tá? É que estou me esforçando, afinal, o ensino brasileiro anda tão bom que as pessoas nem sabem sequer o nome do último presidente antes do Lula (eca!) – talvez, pela média nacional, só 20% das pessoas consiga chegar a esse ponto do texto sem se cansar porque a leitura é muito extensa).

Em armas de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal
- A violência travestida faz seu trottoir

Toda catedral é populista
É pop, é macumba prá turista
E afinal? O que é Rock'n'roll?
Os óculos do John, ou o olhar do Paul?
- O Papa é Pop

'Foto

Impossível eu, com meus vinte e sete anos, não me lembrar de Engenheiros do Hawaí e fazer um medley entre “O Papa é Pop” e “A violência travestida faz seu trottoir”. Tudo bem, a minha geração lembra dessas músicas, pelo menos de uma delas, garanto! E é impossível não citar um trecho de ambas as letras, mas elas deviam ser revisitadas e modernizadas, afinal, o Papa nem é mais o mesmo Pop, agora ele é da direita e é conservador, tem cara de ditador eslavo e se vestisse farda seria a reencarnação do Boris Yeltsin ou, com um manto beneditino, um cosplay mais que perfeito do Imperador Palpatine – vejam se na foto ele não é “categoria pro”; também a violência não está mais travestida (só os emos) e não se finge mais nada de forma discreta, é tudo agora mentira na caruda, afinal, quem é que consegue questionar alguma coisa? O nível intelectual do brasileiro cai cada vez mais e o máximo de contestação que se sente é quando toda a massa da classe média assiste Arnaldo Jabor com suas críticas na Globo – vejam bem, meus queridos, Jabor e Globo são o que questionam o país. Onde estamos? Universo paralelo? Não, nivelamos por baixo o nosso país... já somos um barco fazendo água em seus últimos suspiros, agora, vale a nós escolhermos nosso botes salva-vidas – se você não tem grana pra comprar o seu, reze pra sobrar uma “táubua” pra se segurar e que não seja uma “táubua de tiro ao Álvaro”.

P.S.: Cada dia mais atenção viro pro budismo, pelo menos a prece é discreta!

18.4.07

Gerun... odiando!

"Eu vou estar morrendo, para estar te salvando" - Gerúndio de Jesus*

Por diversas vezes recebi telefonemas de operadores de celulares ou de alguém oferecendo produtos bancários em meu telefone celular e em todas essas ocasiões fui abordado por frases como “vou estar encaminhando para que o senhor esteja analizando” ou “gostaria de estar obtendo informações de como estar ajudando o senhor”.

Alguns poucos iluminados (salve-os, óh, Razão!) devem saber o que está errado: é gerúndio demais funcionando como verbo auxiliar quando não era para ser assim! Tudo bem, você não lembra direito o que é gerúndio, pra refrescar a memória, de uma forma bem simplista, gerúndio é aquela forma verbal que dá impressão de continuidade – quando a gente solta um “estamos jogando” fazemos com que o verbo dê impressão de fato presente que vai se estender (outra forma de se identificar um gerúndio é por sua terminação em “ndo”, tal como em “falando”, “fazendo” e “imprimindo”).

Não vou dar aulas aqui sobre isso, mas é que estou ficando irritado com a insistência das pessoas em usar esse monte de “ndo” e afins! Dá vontade de pular no pescoço.

"Gerundismo" de merda! (Olha, esse nome enche a boca, parece até nome de um movimento intelectual ou político – como o socialismo, facismo, niilismo, etc. Vou montar um partido Gerundista, lembra até o tal do Getulismo! Ficaria bem próximo do Populismo, se eu pensar que o que é popular vem do povo - está bem, eu sei que populismo não quer dizer isso, foi uma piada infâme!)

Eu sei que usar de gerundismo pelas empresas de telemarketing é uma estratégia para aproximar o cliente do atendente, pois cria uma impressão de intimidade. Às favas essa intimidade, ela é tão irritante quanto o fofolês (“c qé c meu miguxxxxo? adooooooruuu vc!”) e mais imbecil porque está repetindo uma intimidade falsa de alguém que não te conhece, não é teu amigo e quer, na verdade, ferrar com você (ou você acha mesmo que aquele vendedor de assinatura de jornal “vai estar facilitando a forma como vai estar cobrando e dividindo as suas parcelas”?).

Ouço as pessoas por aí falando desse jeito e me irrita, mas na verdade, eu relevo, afinal, tem tanto erro pior aí no “protugueis” e a linguagem falada é algo mais solto mesmo (no fundo, eu até gosto dessa vida da língua, das novas expressões e afins). O pior de tudo é que eu vivo recebendo e-mails que não são SPAM, de pessoas entrando em contato e que tentam usar de um linguajar mais polido, mas em quase todas as frases existe um gerundismo de matar.

Poxa, é difícil pensar um pouco e até mesmo economizar no que se fala! Por exemplo, temos duas opções de falar a mesma coisa:

  1. Gostaria de estar obtendo informações sobre como estar falando com o dono da casa.
  2. Gostaria de obter informações sobre como falar com o dono da casa.

O primeiro item aí é o tal do gerundismo, no segundo aparece a forma correta de como escrever a frase. Não adianta, até falando isso é feio. Não seria melhor perguntar direto “Qual a forma de contato com o dono da casa?” ao invés de ficar fazendo rodeios? Sério! Parece besteira, mas estamos sendo invadidos por esse linguajar que vem crescendo, penetrando nas massas, afinal, quem é que ouve ligação de atendente de telemarketing? Claro que é a secretária do chefe, a dona de casa, a empregada, o cara que está devendo uma grana pra empresa de micro-crédito, o cara que está com todas “as conta” atrasadas... e por aí vai! A massa começa a falar assim e você passa a ouvir nas conversas de elevador coisas como: “Vou estar indo com o Valmir ao shopping para estar pegando um cinema! Não é incríiiiiiiivel?”.

Só pra deixar claro, antes que me fuzilem, não falei que a secretária é quem fala assim, dei um exemplo das massas.

Usando o exemplo da secretária: tenho um advogado com um escritório grande, então ele tem duas secretárias, uma para cuidar de sua agenda e outra especificamente para processar o atendimento telefônico (ela não é telefonista porque tem outras funções na empresa). Então, conclui-se que no mundo hajam mais secretarias que advogados, não é mesmo? Pelo menos o dobro! O mesmo vale para lojas, por exemplo, você tem um gerente e vários funcionários abaixo dele, então, o mundo tem mais funcionários do que gerentes. Concluímos então que a massa de pessoas é formada em sua maioria por funcionários no final da pirâmide (garçons, secretárias, caixas de banco, etc). Não se preocupe, não acho que o gerundismo seja problema "social" ou tem a ver com renda, é um fenômeno que não se prende a isso (quase como a AIDS, rs): tem gente sem grana que usa muito, gente da classe média, gente podre de rico, gente hetero, gente homo, gente do cinema, gente do teatro e gente da medicina - é a moda do momento!

Arghs!

Parece reclamação de velho, mas você não fica irritado também com isso? É todo mundo muito intimo, muito teu amigo quando começa a falar, mas no fundo, sinto-me como se alguém estivesse tentando vender para mim uma imagem e depois fosse te foder!

Oras, não é assim quando a operadora de telefonia vem oferecer os seus benefícios milagrosos e, no final, quando você vai cancelar o serviço ela te avisa que você só vai conseguir isso se pagar uma taxa de R$ 200,00 devido ao não cumprimento de uma cláusula que te mantinha preso ao serviço contratado?

Quando alguém me solta uma frase gerundiada é esse sentimento que jogo de volta contra a pessoa. Então, pessoal, nada de “vir me cumprimentado para estar me deixando nervoso”!

(* creditando a frase de abertura porque a idéia é do meu amigo Lucas Delmont, que concorda comigo que Gerúndio parece nome de retirante de livro do Jorge Amado).

2.4.07

Ninguém é o dono da razão, mas é bom assumir a escorragada as vezes, né?

Hoje eu tenho dois assuntos pra tratar: as palavras da nossa querida ministra que eram pra ter repercutido MUITO mais na cabeça das pessoas (acho estranho como algumas coisas realmente sérias são vistas com desdém – na verdade, não acho estranho, porque as pessoas não pensam muito na seriedade das coisas; é o ópio, minha gente, é o ópio!) e a outra é a Lei Municipal nº 14.223 (apelidada de “Cidade Limpa”).

Quanto ao que disse a ministra Matilde Ribeiro, só o caderno Mais da Folha de São Paulo, desse último domingo, dia 1º de abril (e nem foi mentirada!), já dá pano pra manga.

Algumas coisas que eu selecionei da Folha para que vocês sintam o teor da discussão (se você é assinante do jornal ou do UOL, você pode acessar o conteúdo através dos links nos nomes das reportagens e ler por lá mesmo a íntegra das matérias – vale a pena!).
Publicada na matéria de título “O divisor de água turvas”, uma entrevista com o historiador Ronaldo Vainfas, há um resumo dos seus dizeres já no chapéu do texto, que diz:

Para Ronaldo Vainfas, professor titular de história na Universidade Federal Fluminense, as declarações da ministra Matilde Ribeiro incitam ao ódio racial e demonstram uma visão "simplista e insidiosa". Para o autor de "Trópico dos Pecados" (Nova Fronteira), embora seja ministra, a titular da Secretaria da Promoção da Igualdade Racial fala em nome de "setores radicais do movimento negro, revanchistas e que ideologizam ao extremo".

Para o historiador, a ministra não consegue deixar de ser uma "militante radical do movimento negro". Ele também criticou a vitimização da África pelo Ocidente.

Ainda nessa matéria tem a passagem, que é uma coisa que eu sempre falo, mas quando eu solto essa, as pessoas me olham torto, como se eu estivesse justificando algo com um discurso cego e racista, quase nazista:

Essa história de vitimizar a África, ocultando que a África se envolveu no tráfico, é descabida, mistificadora e historicamente frágil. Havia uma cumplicidade enorme dos reis africanos.

Os europeus não conquistaram a África e capturaram eles mesmos os africanos para levar para as Américas.

Agora, na matéria “Diferenças essenciais”, o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, disse:

Acho que sim. No Brasil, as minorias raciais, sexuais e de gênero são tentadas a ver a discriminação apenas do lado do opressor mais poderoso, como se as minorias sempre tivessem razão.

No caso da ministra, embora tenha dito que não concorde com essa posição, acho que as declarações representam quase uma aprovação da intolerância na convivência racial.

Ainda há a condenação das palavras utilizadas pela ministra, feitas pelo presidente da OAB e o pedido de retratação exigido pelo mesmo.

Dessa história, quem saiu ferido foi só a cabeça daqueles que param para pensar em uma nação a partir do agora. Os erros históricos aconteceram com todo mundo. Meus descendentes também sofreram, não foram "roubados" de sua terra natal, mas vieram para cá fugidos de conflitos na Europa com promessas de uma vida melhor - no final, acabaram em um sistema muito parecido com a escravidão, a diferença é que não havia o tronco, mas a senzala e a impossibilidade de sair das terras do oligarca agrícolas eram praticamente um regime de escravidão disfarçado (quem assistiu a mini-série da rede Globo "Amazônia" verá como funciona esse processo, mas no caso, com os nordestinos que foram levados com promessas de riqueza para os seringais do Acre no final do século XVIII) - os japoneses, os italianos, os alemães e um tanto de outros povos foram trazidos aqui e massacrados também, a diferença é o contexto todo, pois não adianta contar uma parte da história ou acabaremos por nos tornar tendenciosos!

Quanto ao programa Cidade Limpa, desse eu vou falar com mais propriedade depois, só afirmo que eu não concordo e não acho que isso vá resolver de fato os problemas da cidade – vai afetar as periferias, não estou falando do pessoal que mora longe, mas dos empregos informais e de uma massa que precisava de qualquer trabalhinho, já que o Estado não dá pra eles educação básica, qualificação profissional e, conseqüentemente, emprego!

Meu argumentos vem depois, com muita calma – porque eu estou sem dormir e muito puto ainda para ser ponderado!

27.3.07

Ministra defende o apartheid ao contrário

Outro dia, alguém respondeu aqui no meu blog quando eu falei sobre o racismo, que eu achava um absurdo o “racismo invertido”. A pessoa não se identificou, então eu não consegui respondê-la e deixei o assunto passar, pois de justificativa cega e unilateral eu estou de saco cheio (eu discordo completamente do ponto de vista da pessoa em questão, afinal, o pensamento correto seria “acabe com essa besteira” e não “inflame essa besteira” – mas cada um torce pro time que quer).

Então, hoje abro a capa do UOL e me deparo com a declaração da Ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Social (SEPPIR):

A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

E ainda:

Aparentemente todos podem usufruir de tudo, mas na prática há lugares onde os negros não vão. Há um debate se aqui a questão é racial ou social. Eu diria que é as duas coisas.

Além disso citado aí ela conseguiu somar várias pérolas fantásticas em sua declaração, dignas de um apartheid invertido!

A questão no Brasil não é de racismo, mas sim de conflito social. Se os negros passam a se considerar massacrados por uma elite branca (que de fato não existe, porque no final todo mundo tem sua pitada de brasilidade e o olho claro é bem comum misturado ao cabelo enrolado ou o cabelo castanho e a pele morena), então eles se isolam em seus guetos, criando uma subcultura. O que acontece em movimento contrário é que eles se isolam da sociedade e passam a ter outros fatores além da pobreza para enfrentar, tal como linguajar e aspectos culturais desenvolvidos nestes guetos – conta mais isso do que a cor da pele.

No filme Crash, No Limite, você vê como é essa relação nos EUA, bem mais intensa e delineada que aqui no Brasil, mas entende que não é a sociedade que isola as pessoas por cor ou por nacionalidade, mas sim as próprias pessoas que se isolam, criando muros e preconceitos não justificados.

O que a Ministra disse não faz sentido, apenas me deixou MUITO revoltado, porque ela permite que as pessoas pensem de uma maneira pequena. A linha de raciocínio utilizada pode permitir que eu queira que todos os alemães sejam queimados em câmeras crematórias ou sufocados em de gás por conta da segunda guerra, que todos os católicos apostólicos romanos sejam torturados e queimados em fogueiras por conta da Inquisição e que todos os países “colonizados” pela Europa invadam o Velho Continente estuprando, roubando suas riquezas, massacrando a sua cultura e matando todo mundo com doenças infecto-contagiosas.

O pior de tudo, tem gente que acredita que os ingleses realmente proibiram a escravidão porque eles eram “evoluídos e bonzinhos”. Gente, era errado, fato, foi uma besteirada, mas só acabou porque os ingleses estavam perdendo mercados consumidores e perdendo a concorrência onde a prática da escravidão dava lucro, ou seja, em paises que vendiam matéria prima! Ingenuidade achar que foi um pensamento iluminado que levou a pressão que deflagrou a abolição da escravatura.

Agora, fico eu revoltado aqui, porque a nossa ministra falou uma besteira tão grande que vai criar um pensamento que justifica a violência pela violência. Vamos nós de volta a Lei de Talião e pensemos em jogar toda a cultura moderna no lixo, pois Gandhi estava errado, Cristo estava errado, Buda estava errado e o resto todo estava errado, afinal, a gente não é obrigado a gostar de quem nos pisoteia e podemos nos isolar deles a vontade – se der vontade, vamos meter açoite neles, afinal, é a hora da desforra.

A questão no Brasil não é racismo, mas distância social e criação das subculturas que vivem às margens. Uma vez eu dei um exemplo bem simples: o loirinho pobre que tem um irmão negro e um japonês vai ser obrigado a se ver sem escola pública porque somente o irmão negro terá direito a sua cota?

Pensem a respeito!