6.5.05

Como em 1984, em “o amor é ódio”, as coisas podem ser levadas a ópticas diferentes cada vez que analisamos uma situação. Duas coisas nos movem como individuos e essas duas foram nomeadas acima. Agora, basta a nós escolher qual das duas vamos querer deixar mais presentes na minha vida. Odeio? Sim, vocês não têm idéia de como eu tenho a capacidade para fazê-lo, mas meu ódio é menos nocivo do que meu amor pela vida. Meu amor pelas coisas é que me sustenta, meu apego pelo pelas pessoas que eu amo me leva adiante, mesmo que doa na maioria das vezes sentir-me sozinho nesse mar de anseios. Sou um sonhador, um romântico que finge a todo o momento ser frio e calculista; visto uma carapuça de insensibilidade e distantância, mas eu choro sozinho – e como choro! Sou uma criança com medo do escuro e o escuro vive a minha volta. Peço auxílio em meu sofrimento, mas ele é discreto (quase secreto, diria), também disfarçado de alguma outra coisa. Enlouqueço todos os dias um pouco mais, mas é na mesma medida que eu me encontro. Sou um pássaro pregado em uma árvore qualquer, estou no alto, mas não vôo.

Abaixo, um trecho de De Profundis, de novo, do Oscar Wilde. Leiam, vale a pena perder um dia ou dois para encarar o livro, ele vai ficar mexendo em seu espírito por muito mais tempo.

“(...) Mas, tal como eu, também teve uma trrível tragédia em sua vida, embora inteiramente diferente da minha. Quer saber qual era? Ei-la: em você, o ódio sempre foi mais forte do que o amor. O ódio que sentia por seu pai era tão grande que conseguia ofuscar, sobrepujar e aniquilar inteiramente o amor que sentia por mim. Não havia qualquer conflito entre esses dois sentimentos, ou quase nenhum, tais eram as dimensões e a intensidade do seu ódio. Não percebia que a mesma alma não pode abrigar duas paixões tão diferentes: elas não podem habitar ao mesmo tempo aquela bela casa. O amor é alimentado pela imaginação, através da qual nos tornamos mais sábios do que sabemos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos, capazes de ver a vida como um todo; através da qual, e só através dela, chegamos a entender os outros tanto em sua relação real quanto ideal. Só o que é superior e superiormente concebido pode alimentar o amor, mas qualquer coisa alimentará o ódio. Não houve uma só taça de champanhe que você tivesse bebido, uma só das finas iguarias que tivesse provado durante todos aqueles anos que não tivesse servido para alimentar e engordar o seu ódio. E, para gratificá-lo, você jogou com a minha vida tal como jogou com meu dinheiro: descuidadamente, estouvamente, indiferente às consequências. Imaginava que, se perdesse, os prejuízos não seriam seus. E, se ganhasse, sabia que as vantagens e alegrias da vitória lhe pertenceriam.

O ódio cega. Você não percebia isso. O amor é capaz de ler o que está escrito na mais remota estrela mas o ódio deixou-o tão cego que você já não conseguia ver nada além do estreito, fechado e estiolado jardim dos seus desejos mais vulgares. Sua terrível falta de imaginação, único defeito realmente fatal de seu caráter, era causada exclusivamente pelo ódio que trazia dentro de si. Sutil, silenciosa e secretamente, essse ódio ia aos poucos roendo a sua essência, tal como o líquen vai corroendo a raiz do salgueiro, até que não conseguia distinguir nada além dos mais mesquinhos interesses e dos objetivos mais medíocres. O ódio envenenou e paralisou aqueles dons que você possuía e que o amor teria nutrido. (...)”


A vida é pouco mais do que isso. Amor e ódio. Por isso faço de tudo para evitar paixões, prefiro uma vida morna, constante, mesmo que não a tenha assim - meu objetivo é o equilibrio, nem que demore uma vida inteira, é lá que quero chegar. As planícies são mais férteis para se plantar sonhos; montanhas são bons lugares para fitar as mudanças.

Até.

4.5.05

Uma das melhores passagens literárias dos últimos 3 anos eu consegui em um livro que deveria ter lido a muito tempo atrás. De Profundis, do Oscar Wilde, escrito enquanto ele estava preso por pederastia (isso mesmo, ele foi preso por ter sido acusado de viadagem, acreditem, no final do século XIX, na Inglaterra; só que a história envolve outros aspectos, tais como interesses pessoais e políticos de uma minoria que sempre foi a que ditou a “moral e bons costumes da sociedade londrina”). No livro ele narra toda a sua história, não tenta defender suas ações e explica tintim por tintim os acontecidos, envolvimentos e outros mais da história – certo que é a história contada do lado dele, então não dá pra achar que ele é o santo que tenta pregar, mas mesmo assim ele tem ÓTIMAS sacadas sobre relacionamentos. É tão (ou mais) contundente quanto o filme/peça Closer.

“Percebi também que teria sido mais feliz se possuísse um espírito menos cultivado. E não digo isso com rancor, mas por simples companheirismo. Basicamente, o diálogo é o único vínculo capaz de unir duas pessoas, seja no casamento ou na amizade. Mas para que haja diálogo, é necessário que existam interesses comuns. E entre duas pessoas de nível cultural totalmente diverso, o único interesse comum possível só pode existir ao nível mais baixo. A simplicidade de pensamentos e ações pode ser encantadora. Eu fiz dela a base de uma brilhante filosofia, expressa em peças e paradoxos. Mas a frivolidade e a insensatez da nossa vida tornavam-se muitas vezes cansativas para mim: nós só nos encontrávamos em meio à lama e embora o único assunto em torno do qual invariavelmente girasse a sua conversa pudesse ser terrivelmente fascinante, ele acabou por tornar-se bastante monótono para mim.”

E por aí vai. É o maior “pé-na-bunda” que alguém poderia dar em outra pessoa. É genial por ser tão transparente, ou, se não foi sincero, pela genialidade de Wilde em fazê-lo parecer. É contundente na medida que fala das coisas, na forma como trata o relacionamento entre duas pessoas que tinha apenas algo pouco maior que um “desejo por presença”. É o maior documentador dos relacionamentos humanos e não muda muito a sua intenção no agora.

Vale a pena ser lido, mas é mais um dos espelhos que fazem com que sintamos aquela pontada no peito e pensemos: “droga, eu sou humano também”.

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Furei o lábio outra vez. Notícia assustadora? Não, não. Sentir dor desejada, acreditem, apazigua o meu espírito. Meu filhinho voltou. A mesma jóia, no mesmo lugar e com a mesma tatuadora. Aliás, a Mari é ótima. Vocês precisam passar lá no estúdio dela. Pessoa legal, profissional super foda e sabe o que faz. Simpatia e profissionalismo rulez. Passem lá na loja dela, na Galeria do Rock, Rua 24 de Maio, 62 – 3º andar, loja 465. Do lado do Teatro Municipal e pertido da estação Anhangabaú ou República do metrô.

3.5.05

O que a gente sente quando não sente nada? Eu odeio este nada, este modo anestesiado que eu fico toda a vez que os ciclos se repetem. Creio que deva mapear a minha vida para ter uma lógica nessas interrupções das euforias domésticas que vivo. O que há de errado? Nada, creio. Os dias apenas são mais pesados e a estética fica tão massante. O jeito é me mudar, continuar, até não ter mais espaço na pele para deixar minhas marcas. Quero algo novo, alguém velho pode ser, mas desde que me tenha por completo.

Não entendo como o Grande Cthulhu ainda não devorou o meu espírito. Talvez seja porque eu pertença a um outro tipo de ficção. Talvez eu seja muito mais Casmurro do que Criatura do Espaço Profundo e Arquétipo Virtual.

Vou me procurar por entre os livros do começo do século XX, o meu século, com doenças novas mas com os mesmos velhos vícios.

Acenda o cigarro. Dê-me uma gole desse bourbon.

2.5.05

Carta vazia a Ninguém-Em-Especial

De algum lugar em minha consciência ébria por tanto vinho tomado, aos dias do maio frio do ano corrente.

Para o amor da minha vida, a quem amo tanto.

Não sei como dizer-lhe como me sinto sem ferir a mim mesmo, pois é tão certo quanto amanhã o sol levantará um novo dia que não gosto de assumir meus erros. Sim, é nisso que acredito, que eu errei em acreditar nos aspectos mais nobres da natureza humana; não é apenas sobre o que passamos que digo, é sobre o todo que me engloba e esse mar de infrutíferas tentativas de me relacionar de forma clara e desejosa com quem permito que se aproxime de mim. A carne não parece mais sedutora aos meus olhos e uma ojeriza maldita toma conta de mim toda vez que vejo que o que faz os corações pulsarem são a lacívia e o desejo.

Sinto-me tão menos nobre do que ontem, talvez por ter notado que essas coisas todas que me incomodam e machucam são manobras naturais humanas, ou seja, eu também erro, também faço as mesmas coisas, só que em ordem diferente. Não sou tão imprevisível ou inconstante como achei que era, não sou uma pessoa diferente – sou igual a tantas outras pessoas, droga, olhei-me e me descobri humano. Quanto mais tentei me sintetizar, tornar-me objeto inanimado, mais humano fiquei; talvez isso seja conseqüência direta de entender os aspectos e fragilidades da natureza do ser. Acabei tornando-me um filósofo, mas desses bem pequenos e baratos, porque só questiono a mim mesmo e a condição que me afeta diretamente agora.

Posso ser um romântico disfarçado de prostituto e vendido, posso ser um homem com rosto e atitudes de garoto, mas no fundo, o que guardo aqui é um buraco do tamanho do universo, tão grande quanto tantos outros buracos que algumas pessoas que eu conheço guardam em si mesmas.

Tremo a noite com esses pensamentos, pois me afeta diretamente o desejo por atenção e necessidade por notoriedade. Não, não é esse tipo de notoriedade que quero; não desejo ser famoso, desejo apenas ser notado, nem que seja por uma pessoa além das que querem a minha morte. Está certo que não tão ruim assim que mereça morrer por meus pecados, nem mesmo acredito que mereça punição, mas o faço todos os dias quando me questiono, quando questiono o coração.

Nesta hora é que invejo os ignorantes. Aqueles que não tem conhecimento de si mesmos são mais felizes, não precisam assumir seus erros e nem mesmo explicar suas situações para sua própria alma. Já disse antes isso tantas vezes que não tenho a conta acertada – e nem a desejo ter, quero ignorar essa minha redundância da dialética.

Você pode nem se importar de fato com o fenômeno que nos acomete, nem mesmo com essas letras que soltamos quando dialogamos a distância, mas o que importa de fato é que não significamos nada a um ou a outro. Essa é a verdade. Nem a mim mesmo significo alguma coisa, sou a metade de um cérebro isolada da outra – não me compreendo mais do que poderia compreender aqueles que vivem comigo diaramente, mas disso eu só sei daqueles que não deixo se aproximarem de fato de mim.

Paradoxal, sempre. Afinal, ser simples é muito menos seguro do ser complicado. Pode parecer até hipócrita, mas é maquiavélico esse modus operandi. Sim, explico-lhe o motivo: quando pensamentos de forma simples e nossas ações podem ser medidas a qualquer momento, uma palavra dita passa a ser o que ela significa de fato. Ser vago, obtuso ou prolixo é mais seguro, pois quando você se utiliza dessas armaduras impede que o que você tenha dito tenha o significado desvendado; você pode, então, torcer as suas palavras, explicar mais detalhadamente um sentimento ou idéia que pode soa delicado a minha mente. Aprenda com isso. Aprenda se proteger dos insultos, dos erros e dos exageros, para que usar a palavra certa se a metáfora pode ser tão mais ampla?

Não me importa o que sente agora, pois eu não me importo com o que sinto a anos, desde que pela primeira vez cometi um assassinato e senti o sangue correndo por minha mãos trêmulas. Não pasme com essas linhas, eu já matei antes, várias vezes, e não deixarei de matar agora, pois virei um criminoso sedento por mais imagens sórdidas. Reincido nos crimes de outrora sem medo, mato personalidades na mesma velocidade que as crio; incendeio audeias, países, civilizações inteiras caem sobre o meu pensamento – sou o ditador mais cruel que conheço, sou o Deus sem misericórdia e vingador, tal qual o do Velho Testamento, o qual todos temiam e não esperavam amor.

Como queria que você compreendesse as entrelinhas, como se fosse possível mesmo que eu lhe desse a receita, pois você ignora o código que uso, mesmo que ele seja aquele que uso em todas as horas. Você é minha contraparte, meu Nemesis e meu recheio perdido, só que não sabe quem é tanto como eu não sei seu nome em toda a minha vida.

Você já foi tantas. Você já foi amante, já foi amiga, já foi namorada, já foi companheira e já foi a mais odiada; foi tanta coisa que não sei mais quem o possa ser. É estranho ter mais essa certeza, que a "incerteza é a única coisa que você pode esperar".

Queria tanto lhe tocar o rosto mais uma vez, mas não sei ao certo se seria uma carícia ou um tapa, pois me agrido a cada momento que acredito que o amor é algo concreto que abstraímos para que ele seja impossível.

Vou seguindo o meu caminho, enquanto você segue o seu. Vamos sendo duas Berlins em uma, em plena década de cinqüenta – é mais romântico se achar dividido ao meio do que assumir que todos somos tão idênticos que só somos estranhos quando comentos os mesmos erros.

Espero que continue em sua caminhada, sendo ela curta ou longa, e que lá no meio da jornada não sinta nunca remorso ou culpa.

Com todo o carinho que posso nutrir com as mãos sujas de sangue, do seu amor que fugiu com a empregada mensalista.


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Texto meu, escrito em uma inspiração mesclada a desabafo e a idéias de várias pessoas. O eu poético pode até não ser eu mesmo, muita mentira foi contada acima, mas vale somente separar o que é verdade a quem interessar me conhecer de fato.